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sábado, março 22, 2008

A invenção do amor

Hoje por ser o dia Mundial da Poesia, coloco este poema de Daniel Filipe, que recordo bem, na marca do tempo, em que tinha metade da idade e o dobro dos sonhos.

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares
à porta dos edifícios públicos
nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado
por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes

na vitrina da pequena loja
onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro
que foi o lar da nossa esperança de fuga

um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia
que um homem e uma mulher

se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor
com carácter de urgência

deixando cair dos ombros
o fardo incómodo d
a monotonia quotidiana


Um homem e uma mulher
que tinham olhos e coração
e fome de ternura

e souberam entender-se
sem palavras inúteis

Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza

de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas
para a humidade diurna

Despediram-se e cada um
tomou um rumo diferente

embora subterranêamente unidos
pela invenção conjunta

de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher
um cartaz denuncia

colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV anuncia

iminente a captura
A policia de costumes avisada

procura os dois amantes
nos becos e nas avenidas

Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam
tremendo a cada batida
na porta fechada para o mundo

É preciso encontrá-los
antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique
Antes
que a invenção do amor
se processe em cadeia


Há pesadas sanções
para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas
aquarteladas na província

Convoquem os reservistas
os bombeiros
os elementos da defesa passiva

Todos, decrete-se a lei marcial
com todas as consequências

O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher

conheceram-se
amaram-se
perderam-se
no labirinto da cidade


É indispensável encontrá-los
dominá-los
convencê-los

antes que seja tarde
e a memória da infância
nos jardins escondidos

acorde a tolerância
no coração das pessoas


Fechem as escolas
Sobretudo

protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica
que algures ao sul do rio

um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente
porque lha recusaram

Segundo o director da sua escola
é um pequeno triste
inexplicavelmente dado aos longos silêncios
e aos choros sem razão

Aplicado no entanto
Respeitador da disciplina

Um caso típico de inadaptação congénita
disseram os psicólogos

Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado

e submetido a um tratamento especial
de recuperação

Mas é possível que haja outros
É absolutamente vital

que o diagnóstico se faça
no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino
da civilização que construímos

o destino das máquinas
das bombas de hidrogénio
das normas
de discriminação racial

o futuro da estrutura industrial d
e que nos orgulhamos

a verdade incontroversa
das declarações políticas


...

É possível que cantem
mas defendam-se
de entender a sua voz
Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos
o rosto banhado de lágrimas

E quando foi interrogado
em Tribunal de Guerra

respondeu que a voz
e as palavras
o faziam feliz

lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos

Água simples correndo
A brisa das montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior

Mas caminhou cantando
para o muro da execução

foi necessário amordaçá-lo
e mesmo desprendia-se dele

um misterioso halo
de uma felicidade incorrupta


...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias

Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua

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